Eduardo Ribas: O estatístico que virou chopp!

Risco & Recompensa , 04/03/2019

Estatístico, formado pela Universidade do Rio de Janeiro (UERJ), formado em Administração de Empresas pela ESAN e com Pós-Graduação em Marketing pela ESPM, com mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro e TI. Trabalhou na Credicard, Melita Inc, Banco Ibi e Bradesco. Atualmente é um dos sócios do bar Embarxador.

R&R: Entrou água no chopp do mercado de risco?

ER: Absolutamente não. É um mercado primordial para o crescimento do país. É através desse mercado, que se tomam decisões fundamentadas. Vejam as grandes corporações, principalmente no mercado financeiro, todas elas atuam fortemente no segmento de risco, em como minimizá-lo. Novas ferramentas são disponibilizadas com frequência.

Eu particularmente ainda sigo com as minhas atividades nesse mercado, com consultorias e fornecimento de tecnologia para os mercados de risco e TI.

R&R: Está difícil trabalhar neste segmento?

ER: Após a crise que o país viveu, com um desemprego elevado, muitos dos profissionais que antes trabalhavam em grandes corporações, migraram para o mercado de consultoria. Além disso, a consolidação do mercado, reduziu a quantidade de postos para os executivos. Isso torna a competição ainda mais acirrada. Mas isso não é particularidade do mercado de risco, é uma tendência em todos os mercados.

R&R: Como se deu a ida do mercado financeiro para o mercado de lazer e entretenimento?

ER: Esse é um sonho antigo. Trabalhar com lazer e entretenimento, mais especificamente bares e restaurantes, sempre foi uma paixão que foi cultivada durante muito tempo e que ganhou corpo nos últimos anos. Porém, as dificuldades não eram poucas e os investimentos elevados. Por isso a necessidade de muita análise prévia. Uma das principais dificuldades para essa guinada era o meu pouco conhecimento do ramo. Precisava encontrar o momento certo e a companhia certa (sócios).

Passei muito tempo observando os locais que eu frequentava e analisava vários aspectos, dentre eles: atendimento, qualidade do que era servido, apresentação dos funcionários, cordialidade, local e, principalmente o “valor não percebido”.

Buscava entender “Por que” eu estava ali. Preço? Comida boa? Atendimento diferenciado? E por mais estranho que possa parecer, quanto menos eu conseguia entender o motivo, mas o local me encantava e me fazia retornar.

Quando finalmente me decidi por empreender nesse ramo, comecei a estudar as possibilidades. O que fazer? Abrir algo do “Zero”? Sozinho? Com Sócios? Entrar numa sociedade já existente?

Depois de medir os riscos (rs) decidi que a melhor opção seria ingressar em algo já existente e com potencial de crescimento.

Decisão tomada... agora ficou fácil..., mas onde está essa empresa? Onde estão os sócios com os quais gostaria de trabalhar?

A escolha pelo Embarxador não foi difícil. Os donos são amigos de longa data. Tivemos experiências profissionais muito boas, o que me levava a crer que poderia dar certo. Além disso, frequentava o local desde a abertura em 2016, como uma simples Confraria.

O Pub estava num momento de crescimento forte e eles precisavam de investimentos para dar um salto de qualidade. Juntou o útil ao agradável. Após alguns meses de negociação, definimos o modelo societário e... BINGO... a primeira parte do sonho estava realizada.

R&R: Podemos chamar esta mudança de realização de um sonho e uma vocação para o empreendedorismo?

ER: Definitivamente é a realização de um sonho. E o empreendedorismo sempre esteve presente. Desde de que deixei o meu último emprego em um grande Banco, havia decidido que havia chegado o momento de empreender. E assim vem sendo desde 2014.

R&R: Como tem sido esta experiência?

ER: Sensação de sonho realizado. As dificuldades existem e não são poucas. Por mais de uma vez, me peguei pensando e dizendo: “Chega!!! Vou voltar para o mercado corporativo”. As obrigações são inúmeras e os “direitos” pouquíssimos.

A carga tributária, as leis (que nem mesmo contadores ou fiscais conhecem), são de enlouquecer qualquer um. Mas confesso que a experiência é maravilhosa.

Além de tudo isso, consigo aplicar o que aprendi sobre administração financeira, no dia a dia do pub... A relação Custo x Benefício, gestão por objetivos, bonificação aos melhores colaboradores, etc.

O trabalho é duro... e um grande erro é achar que agora que você é o “Dono”, vai ficar rico e sem trabalhar muito. Ledo engano..., mas, vale muito a pena.

R&R: Como conciliar a vida de executivo do mercado financeiro com a vida de empresário neste segmento?

ER: Um dos pontos interessantes é que as atividades possuem horários quase que mutualmente excludentes. Enquanto o mercado executivo, em sua grande maioria atua em horário comercial, o de entretenimento se concentra nos finais dos dias e finais de semana. Além disso, com as atividades divididas com os sócios, fica tudo mais tranquilo. Não é raro me pegar trabalhando até à 1 da manhã e já estar de pé às 8hs da manhã seguinte.

Costumo dizer que o Pub é a minha terapia. É extenuante e cansativo para o corpo, mas para a mente, não encontrei nada melhor.

R&R: O sr. acredita que há uma tendência dos executivos do mercado diversificarem suas atividades profissionais?

ER: Aprendemos durante nossos anos no mercado de risco, que nunca “devemos colocar todos os nossos ovos na mesma cesta”. A diversificação minimiza o risco. Porém, o empreendedorismo deve estar no sangue. Deve ser uma característica. Empreender apenas para realizar um sonho, pode virar um pesadelo. É preciso ter em mente que você é o dono, as decisões são suas, os riscos também. Assim como o bônus, o ônus é todo seu.

Para os quem possuem essas características, o conselho que eu dou é: Arrisquem! Vale a pena.

R&R: Uma das características do marketing do Embarxador nas redes sociais e seu sucesso, é a auto depreciação. Por que seguiram esta linha e como tem funcionado na prática?

ER: Essa foi uma das razões da escolha pelo Embarxador. Sempre fui um crítico de tudo o que é tradicional, “standard”. Para nos diferenciarmos no ramo, devemos ser diferenciados. Dessa forma, o que fazer para “ser diferente”? Não dá para simplesmente colocar uma faixa na frente do pub com os dizeres: “Somos diferentes”. Não bastar SER, você precisa ser reconhecidamente DIFERENTE.

A opção pelo “Anti-marketing” ou “Marketing depreciativo” foi unânime. Havia um risco e sabíamos disso. Mas seguimos nessa linha e deu muito certo.

Um dos sócios é formado em Jornalismo e isso ajudou bastante. Ele se auto denomina “Estagiário”, dessa forma, a “culpa” é sempre do estagiário. Como em todas as empresas.

Quando estávamos no início de nossas operações, como em todos os mercados, nosso crédito era próximo de Zero. Tínhamos que pagar tudo no ato. Quer Chopp? Me pague primeiro... e assim foi por algum tempo.

Hoje temos mais de 20 mil seguidores no Instagram. Nossas condições de negociação mudaram. Atualmente, os fornecedores nos procuram propondo parceria. Chegam a oferecer a mercadoria antecipadamente, para degustação.

No último dia 24 de fevereiro, literalmente colocamos o nosso Bloco na rua. E como não poderia deixar de ser, o nome é bastante sugestivo e segue a linha do Anti-marketing. “É UMA BOSTA, MAS A GENTE GOSTA!!” e tivemos a lendária Rita Cadillac como nossa Embaixatriz.

Foi a primeira vez em que o Diário Oficial do Município publicou um palavrão em uma de suas edições.

R&R: Como o seu público tem reagido a esta novidade?

ER: A reação é muito interessante. Na maioria das vezes, me chamam de louco pelo simples fato de comentar que abri um Pub. Quando mostro nossas postagens eles não acreditam que aquilo pode dar certo. Mas, invariavelmente acabam nos visitando e gostando do lugar.

R&R: Quando o sr. acredita que o mercado de risco vai voltar a tirar um chopp com colarinho exemplar?

ER: Sem entrar num viés político, acredito que o país como um todo, parece estar voltando aos trilhos. A escolha por técnicos nas principais funções do governo, recria a confiabilidade dos empresários. O mercado de risco seguiu com suas convicções mesmo nos momentos de crise. O problema foi que nem sempre as recomendações eram técnicas, mas sim políticas. Temos profissionais de altíssimo gabarito e ouso dizer que são os melhores do mundo. Afinal, tratar de risco num país como o Brasil, não é tarefa para fracos.

Esse chopp sempre saiu com “colarinho exemplar”. O problema era que o cliente nem sempre estava preparado para curtí-lo.



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