Os cem dias de Bolsonaro!

Risco & Recompensa , 15/04/2019

É icônico este período na política. Uma espécie de marco reverencial que se concede aos governantes que iniciam mandatos no executivo. É tempo de expectativa também. E de esperança que as condições atuais se transformem para melhor em (quase) todos os setores da administração pública.

A chegada de Jair Messias Bolsonaro ao poder não foi diferente. Cercado de grandes expectativas e de esperanças, o candidato que alijou o PT-Partido dos Trabalhadores da disputa presidencial despertou os desejos da grande maioria do povo brasileiro que se concretizasse uma grande revirada na condução da economia brasileira, sacrificada por severa paralização já há algum tempo. E alterações -- para melhor -- nos costumes e práticas arraigadas na gestão da coisa pública. Dessa pauta constavam dois grandes problemas: a chamada “velha política”, popularmente conhecida como a política do “toma lá, dá cá” e a corrupção endêmica, tão daninha ao Tesouro Nacional e, particularmente, aos contribuintes.

Estamos chegando ao fim do período de graça. Da lua de mel. Ocasião para se perguntar: afinal esse matrimônio do Presidente (eleito, legitimado pelas urnas) com a nação brasileira vai dar certo? Pode-se contabilizar nesse tempo alguns ganhos, mas, igualmente, muitas perdas.

A propósito, a conceituada revista britânica The Economist alertou, em recente artigo publicado pelo jornal “O Estado de São Paulo”, de 28 de março último, que “a menos que ele (o Presidente) pare de provocar e aprenda a governar, o seu mandato no Palácio do Planalto pode ser curto”. Uma advertência dura demais, mas que traz, em si, uma inexorável verdade. Num outro artigo, a revista ironizou: “Jair Bolsonaro é um mestre das redes sociais. Mas para quê?”

O Governo Bolsonaro contabilizou, no período, ganhos de variada espécie. O primeiro deles foi o envio ao Congresso Nacional do projeto de reforma da previdência. Um verdadeiro gol de placa, no linguajar dos esportistas, mas apropriado ao evento, muito embora para se fazer justiça, o Governo anterior, de Temer, já havia se pronunciado a respeito, mas . . . “morreu na praia” ao enfrentar, na ocasião, batalhas advindas de comportamentos – para dizer o mínimo -- não republicanos. Há algumas outras reformas de que a nação necessita e que já se encontram na pauta política há tempos: as reformas tributária e política são algumas delas. Espera-se que o Governo as encare.

O programa de privatizações apresentou também pontos positivos. O maior deles foi o leilão de concessão de aeroportos realizado em meados de março. A disputa, que envolvia 12 aeroportos, divididos em três blocos regionais -- Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste -- foi acirrada, tendo participado dela diferentes grupos internacionais e nacionais. Contabilizou-se, ao final do certame, um ágio de 986% e uma receita de R$ 2,38 bilhões para os cofres da União. Outro gol de placa.

Nas visitas de Estado a países considerados estratégicos pelo Presidente, contrariando até costumes e protocolos da diplomacia brasileira, o mandatário maior decidiu iniciar seu périplo internacional pelos Estados Unidos, deixando países da América Latina para depois. Lá se encontrou com seu ídolo maior, Trump: festejou-o, negociou a utilização da Base de Alcântara, no Maranhão, mal explicou o compromisso de cooperação com a potência americana contra a ditadura venezuelana, obteve do líder norte-americano o apoio à intenção brasileira de ingressar na OECD-Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico em troca da renúncia brasileira na OMC-Organização Mundial do Comércio de sua condição especial de país emergente ou em desenvolvimento, e outras pequenas benesses. Não foi assinado nenhum acordo comercial e tampouco foi aventada maior cooperação de natureza econômica. Ficaram registros de recíproca admiração, nada mais.

Em seguida, o Presidente foi ao Chile, onde, no final da visita, acabou elogiando o ditador Pinochet, para um disfarçado constrangimento do mandatário chileno, seu anfitrião. A visita de Bolsonaro envolvia, igualmente, a presença de vários outros mandatários latino-americanos. De concreto, apenas o “enterro” da Unasul e a criação, anunciada pelo Presidente chileno, Sebastián Piñera, de um bloco de nações sul-americanas, o Prosul, para coordenar os países “sem burocracia excessiva”. Os presidentes ali reunidos reafirmaram, ainda, o compromisso com a integração regional.

A terceira viagem foi à Israel, na mesma linha da ida aos Estados Unidos: admiração pelo Primeiro Ministro israelense e agradecimentos pela participação de soldados daquele país no resgate das vitimas da tragédia de Brumadinho, além do anuncio da criação de um escritório de representação comercial em Jerusalém. As repercussões dessa visita ainda estão por acontecer, dada sua recente ocorrência, mas registram-se algumas manifestações de desagrado de países árabes por conta de apressadas medidas diplomáticas e destemperos de linguagem nas redes sociais manifestados pelo clã Bolsonaro.

Nesse período de lua de mel, houve gols, muitos gols, mas alguns deles foram contra. A composição do Ministério inaugurou esta etapa. Agora seriam “apenas” 22 e não os 29 existentes no Governo anterior. Na formação ministerial, o entendimento com os partidos políticos foi, propositalmente, deixado de lado, já raciocinando em termos da “nova política”. Alegou-se, na ocasião, preferência pelas chamadas bancadas existentes no Congresso (a dos evangélicos, da bala, da bola, da agropecuária, e por aí afora) e por indicações de um certo guru, misto de astrólogo, escritor e filósofo residente nos Estados Unidos, com grande poder de convencimento e persuasão junto à família presidencial.

Com exceção de dois notáveis, aceitos unanimemente pela sociedade (Economia e Justiça), há no Ministério Bolsonaro pelo menos três que não correspondem às exigências do cargo e do momento atual e que acabam criando embaraços para o Governo: o da Educação, das Relações Exteriores, da Mulher, Família e Direitos Humanos. Politica é ação, ação em busca dos interesses do eleitorado. O que tem sido visto nessas áreas são problemas e embaraços por ações e manifestações extemporâneas fora de contexto e jamais uma ação coerente, profícua e eficaz em beneficio dos brasileiros. A situação no MEC é, no mínimo, patética e a grande prejudicada é a área da educação. Só cantar o hino nacional não é suficiente para alçar a juventude do país a patamares mais elevados. Por seu lado, a diplomacia brasileira não atravessa seus melhores dias. Não se encontra à altura das tradições Itamaratianas, herdadas do Barão do Rio Branco.

Ainda em termos de Ministério, houve uma demissão ligeiramente conturbada, a do Secretario Geral da Presidência. As razões que levaram a essa “degola” não foram suficientes para alcançar outro Ministro, o do Turismo, sobre quem pairam indícios de que teria cometido delitos semelhantes aos do Secretario Geral. É de se perguntar: dois pesos e duas medidas?

A economia, por sua vez, permanece travada. Não deslanchou como muitos esperavam. O desemprego continua elevado e não se observou nesses três meses a expedição de medidas que pudessem trazer algum alento para patrões e empregados. O dia-a-dia do Ministro da Economia está tomado pelo empenho que ele dedica ao encaminhamento da análise e aprovação da Reforma da Previdência pelo Congresso. Com isso, o déficit aqui é de confiança. Confiança em novos rumos, tanto para o empresário que pretende investir e expandir seus negócios, quanto para o trabalhador que busca emprego para ter de volta sua renda. O Presidente não se cansa de tuitar, mas o Governo parece não ter projetos para o país.

Sinal de que a atividade econômica não retomou o patamar desejado é a redução da projeção de crescimento do PIB-Produto Interno Bruto para o ano corrente. O mercado financeiro e o próprio BC-Banco Central estão alinhados com essa perspectiva: no seu Relatório Trimestral de Inflação, o BC baixou para 2% sua estimativa de crescimento, contra um calculo de 2,4% feito anteriormente lembrando que, no ano passado, a economia brasileira cresceu apenas 1,1%. Pode-se debitar essa perspectiva pouco otimista à causas pregressas, como a greve dos caminhoneiros, ou à situação internacional adversa, mas cabe o questionamento: o que o Governo está fazendo para reverter esse quadro?

Para complicar a situação, a PEC do Orçamento, ora em tramitação no Congresso, traz no seu bojo o chamado Orçamento Impositivo que impede os governos (federal, estaduais e municipais) de bloquear gastos, contrariando metas de ajuste fiscal. Mais um complicador!

Em termos de articulação política, pergunta-se: onde está a chamada base aliada? Onde foi parar o diálogo com os partidos? A ação presidencial, nesse caso, deixa a desejar. Em principio, é soberba, não toma iniciativa, não avança. Não inspira confiança, fator fundamental para convencer, agregar, mobilizar, enfim, para promover um chamamento popular capaz de envolver toda a sociedade na busca do progresso e da justiça social. Que todos almejamos!

A lua de mel está acabando. Pesquisas recentemente divulgadas indicam que os índices de popularidade do Governo caíram e a expectativa em relação aos próximos anos também. A felicidade (ainda) não apareceu, mas a esperança não morreu. É interessante e oportuno lembrar mais uma vez: política (nova ou velha, não importa) traduz-se em ações concretas realizadas em busca do bem comum, de maneira firme, com base em abrangente liderança, e com uma clara visão daquilo que se quer para o país no futuro. Sem interferências maléficas, deletérias. É com elas que o Presidente deve conduzir o processo de desenvolvimento econômico e social do Brasil e, consequentemente, manter acesa a chama da esperança. É com ações concretas, com propostas de projetos factíveis que deve governar.



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