Empreender: aprender e surpreender

Risco & Recompensa , 15/04/2019

O brasileiro é um animal empreendedor, no melhor sentido possível. É um instinto incontrolável e incontornável que arde como brasa em nosso sangue. Desde criança todo brasileiro sonha grande. Não se trata de ufanismo, indicadores internacionais confirmam nossa vocação e posição entre os países mais empreendedores. Não obstante o ambiente gravemente instável que, entre planos econômicos tectônicos, fez e faz tremer as pequenas startups, empresas familiares e até as gigantes multinacionais, principalmente desde a primeira crise do petróleo.

Naquela ocasião, meados dos anos 1970, a vida era dura, mas o futuro ainda parecia generoso, mas as sucessivas crises, umas gestadas dentro de casa e outras importadas, têm testado ao limite a versatilidade de todos empregados, empreendedores e empresários.

A aguda e persistente hiperinflação, as taxas de juros estratosféricas, a burocracia e os insanos encargos tributários são apenas algumas daquelas placas tectônicas que veem erodindo nossa economia, bem como outros acidentes não-naturais que vão conspirando contra o brasileiro.

Haja autoestima. Um quase hiato deu um refresco durante os anos de banda larga cambial quando o Plano Real instalou os fundamentos para uma economia mais estável e eficiente.

Nos primeiros anos do milênio recebemos mais uma gorjeta durante a febre internacional dos derivativos para, em seguida, ingênuos, vimos um tsunami mas enxergamos só a marola.

Se, num ambiente estável com horizonte suave em longo prazo, já é decisivo conhecer o terreno e o destino, para poder escolher o caminho e definir como o atravessar, você pode imaginar o que significa avaliar cenários quando o horizonte pode ser uma potencial falha geológica, na forma de mais um novo plano econômico. Então, o empreendedor (empregado ou empresário) que pretender reconhecer, construir e realizar estes cenários para atravessar seus obstáculos, além de entusiasmo pessoal, competência técnica e capacidade financeira, deverá saber investigar suas qualidades e oportunidades, para melhor avaliar o que pode concorrer contra ou a favor de sua decisão. Investigar para investir, não é uma opção, é condição radical, para rabiscar um arremedo de plano de negócios. Esqueça o bonezinho de perito das séries de polícia forense que você curte assistir, investigar representa a elaborada capacidade de perceber, estudar, definir e avaliar o seu negócio, antes de assumir qualquer risco, para empreender é preciso aprender para não se surpreender.

Para empreender, por natural, será fundamental entender, e enfrentar os riscos inerentes para estabelecer, e alcançar as recompensas decorrentes. Vale a pena um pouco de prosa para observar como tudo está vinculado. Empreender, aprender e surpreender, estes três verbos trazem uma condição comum entre si, de pobre só a rima, mas primos e ricos em significado. Todos três derivam da mesma origem etimológica, do latim [pre] + [hendere]; prehendere ou, pegar, agarrar e, talvez, a especial virtude dos nossos ancestrais, ou como predadores, ou como coletores. O seu polegar opositor lhes atribuía esta vantagem competitiva. O aluno que aprende e o sujeito que empreende, agarram cada um o seu objetivo, o saber ou o fazer. Aquele que se surpreende, alcança o que nem esperava. Na idade das cavernas era mais comum a surpresa, hoje na selva dos negócios precisamos surpreender e menos ser surpreendidos. Nossa competência!

Outra virtude ou herança cavernosa é a nossa capacidade de ter medo. Enquanto o nosso córtex pré-frontal nos habilita a tomar decisões, entre outras habilidades, as nossas amígdalas cerebelosas regulam nosso comportamento reativo, inclusive o medo. Ferramenta complexa e maravilhosa, nosso cérebro, muito sofisticado, ao mesmo tempo pode nos projetar ou nos proteger. Toda sua eficiência, inclusive, pode ser facilmente ludibriada. Bastam uns poucos estímulos positivos ou negativos para estabelecer, ou manter, padrões, modelos ou paradigmas. Isto acontece porque ele está programado para a luta ou para a fuga. Lembra-se do ditado? “Gato escaldado tem medo de água fria” todo mamífero funciona assim. No caminho para o trabalho, de manhã, você viu um acidente que te assustou, não é improvável que, naquela manhã, você tenha mais concentração na direção. Do mesmo jeito, neste mesmo trajeto, se você tiver sucesso em duas ultrapassagens difíceis logo uma em seguida da outra, é mais razoável esperar que você fique mais valente ao volante. Nosso entusiasmo!

Apesar de isso ocorrer naturalmente, o tempo todo, também não somos tão previsíveis assim, são a nossa experiência e a nossa maturidade que vão deliberar e estimular a nossa razão. Nos negócios não é diferente, precisamos ter medo, o medo pode ser saudável. Não estou falando do medo compulsivo e desmotivado, mas do medo inteligente, próprio de quem percebe, estuda, define e avalia suas estratégias para tomar as melhores decisões antes de assumir qualquer risco. Depois desse ensaio amador de neurociência, com bastante respeito, vou buscar abrigo no antigo testamento, em Eclesiastes, Capítulo 3. “Tudo tem o seu tempo determinado”.

Todo empreendedor precisa entender isso. Tem a hora de ser arrojado e a hora de ter medo. Não pode se deixar persuadir pelo entusiasmo insustentável ou pela sedução do resultado ambicioso. O medo inteligente irá lhe ajudar a calcular os riscos com mais acurácia.

Você que empreende não se surpreenda, subestimar os riscos e superestimar as recompensas, armadilhas do nosso cérebro, são equívocos regulares e recorrentes. Quer empreender?

Aprenda e surpreenda.

O plano de negócios é o remédio do empreendedor para a investigação mais humilde de suas qualidades, de seus pontos a melhorar, uma ferramenta de inteligência, sem armadilhas, que pode lhe ajudar na verificação de seus próximos passos. Aprender para converter as ameaças em oportunidades reais. Com um plano de negócios efetivo, você evitará ser arrojado quando deveria ser responsável e vice-versa. Virtudes que parecem antagônicas, entusiasmo e responsabilidade, se bem combinadas, podem garantir resultados extraordinários. O entusiasmo da coragem que reconhece seus medos e riscos, mais a responsabilidade do medo inteligente que avalia oportunidades e recompensas, são sintomas de que você provavelmente irá surpreender.



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