Senador Airton Sandoval: A economia pode salvar a política?

Risco & Recompensa, 31/07/2017

Percebemos, com muita clareza, que nos dias de hoje, as variáveis econômicas ocupam destacado papel na vida de cada um de nós. A começar pelo nível de emprego. Em seguida vem a renda familiar, o custo de vida, a inflação, a carestia, tudo isso junto com nossas aspirações de melhorar o padrão, a   qualidade de vida, de viver melhor, de progredir.

Os economistas enfatizam que as necessidades humanas são ilimitadas. Há aquelas mais elementares, as chamadas básicas, e também as mais sofisticadas, mais requintadas. Tais necessidades – sejam elas de qualquer natureza – somente serão satisfeitas a partir da riqueza que possuímos ou da renda que auferimos. E esta renda, para a grande maioria da população, vem do emprego. E aí está uma relação sobejamente estudada pelos economistas: renda e emprego. Sem este, a renda desaparece. Sem renda, a miséria, com todos os seus desdobramentos, mostra sua cara.

Quem comanda a economia de um país, de uma nação? Não resta dúvida de que é a Autoridade Maior, o Governo. Falo aqui do governo central que, mediante as políticas colocadas em ação, estabelece as diretrizes para orientar a ação dos agentes econômicos rumo ao crescimento, ao desenvolvimento. Daí a importância de a equipe governamental contar com um time de craques para a formulação, execução, avaliação, acompanhamento, controle e revisão da execução das medidas que irão conduzir a economia nacional. Obviamente, essa diretriz tem origem na ideologia do partido que detém o poder, que pode ser de esquerda, de direita, conservador, desenvolvimentista etc. Não importa. O que importa são os resultados.

O mais importante, fundamental, é que a ação política do Governo produza resultados capazes de satisfazer os anseios da sociedade por crescimento e progresso, justiça na distribuição da renda e do produto, eliminação das desigualdades sociais e regionais, em um contexto de promoção do desenvolvimento econômico e, consequentemente, do bem-estar geral. A partir de uma estrutura tributária justa, simples e ágil, que proporcione recursos para atender a população com serviços sociais básicos -- educação, saúde, segurança, justiça -- de qualidade e abrangência comprovadas, além da realização de obras de infraestrutura (rodovias, ferrovias, energia elétrica, saneamento etc.) que assegurem a sustentabilidade do processo de desenvolvimento que todos nós almejamos. E onde não haja lugar para privilégios e privilegiados.

Exemplos não faltam para demonstrar que a economia se articula com a política. O mais característico deles é o New Deal de Roosevelt. A crise americana de 1929, que levou o mundo a uma situação de pauperismo generalizado sem precedentes, fez emergir – com a equipe rooseveltiana – uma política econômica inovadora, criadora de (novos) empregos e que continha, entre outras medidas, uma Lei de Nacional de Recuperação Industrial e um ousado pacote de estratégicas obras públicas. Roosevelt conseguiu reerguer economicamente a nação americana, cujos efeitos foram sentidos em todo o mundo, e foi eleito quatro vezes presidente, a última em 1944. Morreu no poder, consagrado pela História. No Brasil moderno, depois de inúmeros planos de estabilização econômica (alguns mal sucedidos) conseguimos debelar a inflação em 1994, com o Plano Real. Por sua vez, a Nova Matriz Macroeconômica (política fiscal expansionista, juros baixos, crédito barato fornecido por bancos estatais, câmbio desvalorizado e aumento das tarifas de importação para "estimular" a indústria nacional), legou-nos uma economia caótica, com inflação, desemprego e crescimento zero, e ficou pelo caminho.

A política, como se vê, tem a primazia. Em termos matemáticos, é a variável independente; a economia vem, como já dissemos, em seguida. É a variável dependente. Essa é a regra. As propostas para a modernização e atualização institucional, como as reformas em discussão no Congresso Nacional, por exemplo, confirmam que a iniciativa cabe, sempre, à política. 

Mas, os tempos no Brasil são outros. E a relação política-economia parece ter tido sua ordem, senão invertida, mas, pelo menos, alterada. A dinâmica da correlação está passando por ligeira modificação: a política continua sendo a variável principal, mas a economia, no caso brasileiro, está “salvando” a política, está “virando” o jogo, para usar uma linguagem ao gosto dos esportistas.

Apesar da crise política, agravada desde maio último com as delações que vieram a público, os resultados advindos da política econômica posta em prática pela equipe que hoje comanda a economia brasileira estão dando respaldo à política. Dados divulgados pelo Banco Central no Relatório Trimestral de Inflação, documento que reúne avaliações da instituição sobre a economia e como ela deve evoluir, indicam que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficará abaixo de 4%, o que deve beneficiar as camadas de menor poder de consumo. A meta é de 4,5%, mas nos últimos 12 meses até junho, o aumento do IPCA-15 foi de 3,52%, a menor variação desde 2007, evidenciando um fato econômico raro no Brasil, a deflação. O BC estima, ainda, que o PIB poderá experimentar um crescimento de até 0,5% em 2017, revertendo o clima de recessão que estávamos enfrentando. Em termos das relações econômicas com o resto do mundo, as transações correntes revelam superávit, influenciado pelo saldo comercial positivo, apesar de alguns problemas pontuais.

Na política fiscal, entendida como o conjunto de medidas pelas quais o Governo arrecada receitas e realiza despesas para cumprir as funções de estabilização macroeconômica, redistribuição da renda e alocação de recursos, ainda padecemos de problemas, como o déficit orçamentário a nos assustar e a exigir medidas amargas, na forma de cortes de despesas e aumento de tributos. Neste segmento, a convivência com a realidade e as cirurgias em perspectiva não proporcionam motivos para regozijo ou comemorações.

Por seu lado, o nível de emprego levará ainda algum tempo para se recuperar, mas as perspectivas a respeito são auspiciosas, na medida em que a confiança dos agentes econômicos retornar e novos investimentos sejam feitos. A curva do desemprego já encontrou seu ponto de inflexão e deixou de crescer. No primeiro semestre do ano, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados-Caged, divulgados pelo Ministério do Trabalho, o balanço do emprego foi positivo: foram anotados ganhos líquidos de 67.358 vagas.

Nesse aspecto, registro com satisfação que minha cidade, Franca, importante centro calçadista do país, vem dando concretamente sua contribuição na criação de novos empregos. No primeiro semestre de 2017 a cidade liderou a geração de vagas de emprego no Brasil, abrindo 6.001 novos postos de trabalho, mesmo tendo fechado 228 vagas no mês junho.

A confiança na economia, tanto por parte dos empresários, como dos consumidores, dá sinais de que está sendo restabelecida. Pouco a pouco, é verdade, mas está voltando. O que é bom! Parece que começamos a percorrer o “caminho do arco íris”, como no lendário filme “O Mágico de Oz”. Então, é de se indagar: terá a economia, pelos resultados que vem apresentando em pouco mais de um ano e pela confiança dos agentes econômicos que aparenta estar retornando, condições de salvar a política?



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