Uma visão “direcionada” do crédito

Risco & Recompensa, 03/07/2017

Frente a avalanche política do momento, com discussões dos empréstimos do BNDES; o que já podíamos ter percebido antes?

É prática do mercado de gestão de risco, prever resultados. Não se imagina hoje que as empresas modernas façam a gestão olhando no retrovisor, mas sim olhando para o futuro. E nesta visão o futuro pode muito bem ser previsto com base no comportamento atual e passado. Carteiras de crédito podem ser previstas a partir do entendimento de como se comportam no dia a dia.

Fato então que mostra o quanto a situação de empréstimos direcionados a partir do BNDES já mostravam um comportamento fora da curva:


Fonte: Risk Trends GoOn/BACEN - Recursos Direcionados – PJ

Percebemos nos gráficos acima, que de março/07 até março/16, a carteira de crédito direcionado – PJ, cresceu 6 vezes, saindo de R$ 118 bi, para R$ 608 bi.

Olhando a relação Crédito X PIB, atingimos em dez/15 um percentual que representava 53,7%.


Fonte: Risk Trends GoOn/BACEN – Crédito X PIB

No gráfico acima podemos verificar que a linha de crédito que mais influenciou que esta relação ultrapassasse 50% foram os recursos direcionados e com a influência direta do segmento BNDES. Podemos perceber ainda, que o crédito recursos livres, ou melhor, o crédito que mais conhecemos e ouvimos no dia a dia composto dos empréstimos, do cartão de crédito e financiamentos de veículos; praticamente andou de lado no período.

Enquanto países desenvolvidos apresentam a relação Crédito X PIB com percentuais entre 90 a 110%, o Brasil ainda engatinha e fechou abril de 2017 com este percentual em queda em 48,4%. Importante dizer o tamanho das divulgações que tomaram a mídia no momento quando havíamos superado o percentual de 50%, como se o crédito no Brasil viesse apresentando o crescimento acelerado apoiado por nossos governos chamados populares. Porém o crescimento do crédito vinha se mostrando fora dos padrões sim, porém principalmente afetado pelos empréstimos a empresas direcionados a partir do BNDES.

Podemos ainda perceber que ao começo de 2016, já com o processo de impeachment da Presidente Dilma Rousseff, a carteira de crédito do BNDES começou a mostrar queda, já influenciada pela redução dos volumes de novas concessões de crédito.

Um dos fatores que geralmente impactam as mudanças de direção das concessões de crédito é a inadimplência. Ocorre que se o BNDES utilizou o crescimento da inadimplência para está decisão, isto ocorreu digamos de forma muito lenta.

Percebemos no gráfico abaixo que a inadimplência medida pelo indicador over 90, mostra que ao começo do ano de 2015 a inadimplência começa a dar sinais de crescimento atingindo um salto em set/16.

Carteiras com valores consideráveis tem sem dúvida, serem estudadas com cuidado, muitas vezes poucos contratos acabam influenciando o todo de forma diferente que em carteiras de PF. Independente disso, é fato que a inadimplência deste segmento mostrou uma mudança considerável e que vale a preocupação.

Questões políticas a parte sem dúvida o caso J&F movimentou esta carteira, a qual agora abre uma nova fase com a saída de Maria Silvia e entrada e agora a chegada de Rabello de Castro.

É fato que o crédito é um instrumento que permite potencializar o crescimento de qualquer sistema, é fato também que não cansamos de falar que a educação financeira é um dos aspectos que dificulta a elevação da maturidade das carteiras de crédito. Sendo recursos livre ou direcionados, para pessoas físicas ou jurídicas ainda é grande o caminho para que o Brasil tenha carteiras de crédito saudáveis e com a devida consciência financeira.



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