Crédito e desenvolvimento na Região Nordeste

Risco & Recompensa, 05/06/2017

Fui provocado a escrever um artigo sobre crédito pelo meu decano predileto. Ele sugeriu que focasse no Nordeste, uma vez que aqui moro e exerço como consultor, atividades para dar um pouco de consistência nos processos de gestão do risco de crédito e cobrança nas empresas que se aventuram no setor.

Gostaria de olhar adiante e tecer alguns comentários sobre a atividade nesta parte de cima do país. Mas, como todos os gestores de risco sabem, as referências estão fortemente localizadas nas páginas viradas do calendário.

Particularmente no Nordeste, os últimos anos, especificamente de 2004 a 2011, o setor de crédito apresentou números muito acima da média e alguns fatos foram responsáveis, a saber:

  • Introdução de programas sociais como o Bolsa Família, utilizado fortemente para a aquisição de bens anteriormente inacessíveis às classes C e D,
  • Consolidação das aposentadorias rurais, com aumento da renda familiar,
  • Regulamentação da alienação fiduciária como instrumento acessório para os financiamentos imobiliários como o Minha Casa Minha Vida
  • Intensificação dos investimentos estruturais do PAC, alimentando toda a cadeia produtiva,
  • Distribuição do cartão Minha Casa Melhor, com impacto direto no setor de material de construção, eletroeletrônico e de utilidades domésticas.

Desta forma, criou-se a sensação de que o Nordeste tinha se transformando em um “Tigre Asiático”, com elevadas taxas de crescimento, desemprego baixo e mudança de patamar dos componentes das classes C e D.

Com este cenário, bancos, financeiras, factorings, FIDCs e Administradoras de Cartões aumentaram de forma exponencial suas carteiras de crédito, com regras de aprovação de clientes frágeis e focada tão somente em volumes em detrimento da segurança.
Joint ventures foram criadas com varejistas de todos os portes, recursos do BNDES, BNB, BB e Caixa irrigaram os projetos do PAC.

Este foi o quadro construído nos últimos anos. A realidade é que houve uma grande depuração nas carteiras de crédito e a oferta, antes farta, hoje está sendo administrada a conta gotas.

Neste cenário, empresa de fomento mercantil, FIDCS, financeiras e administradoras de cartões além dos varejistas com carteira própria (CDC e PL) vem apresentando desempenho surpreendente pelo simples fato de possuírem forte conhecimento das cadeias produtivas bem como efetuando investimentos em automatização de processos com aquisição de motores de decisão, enriquecimento de dados, modelos estatísticos de classificação e acompanhamento de risco, e algumas utilizando-se fortemente de soluções de Inteligência Artificial para mapeamento e classificação de mercado alvo.

Para o futuro (gostaria de ter uma bola de cristal e dividi-la com vocês) acredito que o sucesso nesta parte do país estará nas mãos de quem dispor de maior conhecimento das características das cadeias produtivas. Posso citar dois grandes exemplos em Pernambuco:

  • O primeiro localizado no Porto Digital, ecossistema virtuoso atuando com empresas de tecnologia e com muita carência de recursos apropriados para o desenvolvimento de seus projetos e financiamento de capital de giro. E isto tem que ser rápido pois empresas deste setor são rapidamente incorporadas pelos grandes players de mercado.
  • O outro exemplo vem do agreste no Polo de Confecções, com faturamento superior a US$ 800 MM, concentrado em 3 cidades, Toritama, Caruaru a Santa Cruz do Capibaribe, possui uma cadeia produtiva totalmente integrada e já responde pela segunda maior produção de jeans do país e números que por si só já merecem uma visita.

Este polo, no entanto, devido a elevada informalidade e carência de infraestrutura passa desapercebido do radar das empresas do setor de crédito. Há presença de bancos, oficiais e privados, mas a qualidade da gestão junto com a informalidade tem deixado as empresas sem acesso a recursos de longo prazo para atualização tecnológica e expansão.



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