Cláudia Mendes Nogueira, sócia da Oficina de Valor Consultoria aborda a difícil missão da transformação de dados em execução!

Risco & Recompensa, 12/03/2016

Nas organizações sempre nos deparamos com soluções inovadoras amparadas pelo tripé : “pessoas, processos e tecnologia”. Este tripé – por sua vez – tanto recebe quanto imprime sobre a cultura e estratégia das empresas suas marcas, mesmo que não se perceba no curto prazo ou no calor do dia a dia.

A complexidade gerada no tecido guarnecido sobre este tripé é invisível. Na maioria das vezes só se consegue observar os softwares, alguns dados, alguma coisa que se chama informação, pessoas realizando suas tarefas, dados combinados em modelos matemáticos, alguma nova competência desenvolvida, além dos inúmeros fracassos relacionados à implementação de soluções tecnológicas. É neste caldo que se encontra o desafio de transformar dados em execução inteligente – coisa pela qual todas as empresas almejam em tempos de Big Data. Entretanto, como ocorre a transformação de dados em execução ? Como isso se processa (ou deveria se processar) no dia a dia das empresas?

Adianto que não encontrará aqui uma respostas simplista – do tipo : “10 conselhos para se sair bem na era da informação”. Entretanto, no final, serão apresentadas algumas sugestões de como seguir em frente em busca de melhores resultados.

A primeira inspiração para tentar chegar numa resposta para esta pergunta vem da prática e também dos livros que ajudam acomodar um pouco melhor as ideias. “Architect or Bee – The Human Price of Technology”, Michael Cooley (1987) também foi referenciado num compêndio de clássicos do MIT Press, organizado por Frank Blackler -“Information Technology and People”: Designing for the Future. (2003). Estes livros falam sobre o futuro. Penso que seja o momento de voltar a eles, considerando que estamos agora há 29 anos da primeira publicação. Podemos entender que o futuro chegou ou que a natureza dos pensamentos continua recorrente.

Apresento abaixo um diagrama inspirado e adaptado do livro de Cooley , que ajuda a explicitar a compreensão prática desta “atividade” que é lidar com o dado, informação e conhecimento aplicado aos negócios. De um lado (eixo “y”) temos a direção do explícito. O dado é a entidade mais explícita e o desafio está no seu armazenamento, compilação, cálculos, separação de “ruídos”. Do outro lado (eixo “x”) temos a execução: que é hipotética, subjetiva, depende do que está na cabeça das pessoas, de como julgam, raciocinam e colocam conhecimento em prática.

Os dois últimos pontos na curva abaixo (competência informacional e execução) foram incluídos por mim para substituir as palavras “sabedoria” e “ação”, originalmente utilizados por Cooley (1987).

Num olhar “preliminar” o gráfico proposto remete a uma sequencia onde o conhecimento só poderia se formar após tratamento de dados. Esta seria uma interpretação tremendamente simplista deste diagrama. Na verdade quando olho para ele vejo uma grande intersecção de “linhas” e “planos”. E é na intersecção delas que se encontra boa parte da resposta à pergunta feita inicialmente.

Os pontos no gráfico nos convidam a interpretar os desafios de cada nó. Ao buscar uma definição para cada um deles nos encaminharemos para a resposta à pergunta principal.

Para a definição de dado, informação, conhecimento e competência, escolho as de Waldemar Setzer (2001/ 2015), o qual pode ser lido integra no link logo ao final deste texto. Abaixo apenas algumas partes destas definições para facilitar o entendimento :

Dado: “dado é necessariamente uma entidade matemática ... Isto significa que os dados podem ser totalmente descritos através de representações formais, estruturais... podem obviamente ser armazenados em um computador e processados por ele”.

Informação: “Informação é uma abstração informal... que está na mente de alguém, representando algo significativo para essa pessoa. Por exemplo, a frase "Paris é uma cidade fascinante" é um exemplo de informação – desde que seja lida ou ouvida por alguém, desde que "Paris" signifique para essa pessoa a capital da França... e "fascinante" tenha a qualidade usual e intuitiva associada com essa palavra.” Informação pode ser também referenciada como “conhecimento teórico”.

Conhecimento: “... algo que foi experimentado, vivenciado, por alguém... está associado com pragmática, isto é, relaciona-se com alguma coisa existente no "mundo real" do qual se tem uma experiência direta... neste sentido é absolutamente equivocado falar-se de uma "base de conhecimento" em um computador. O que se tem é, de fato, é uma tradicional "base (ou banco) de dados". Conhecimento pode ser também referenciada como “conhecimento prático”.

Competência: “capacidade de executar uma tarefa no "mundo real"... uma pessoa só pode ser considerada competente em alguma área se demonstrou, por meio de realizações passadas, a capacidade de executar uma determinada tarefa nessa área... Competência exige conhecimento e habilidades pessoais”.

Usando as definições acima, complemento com as seguintes:

Competência Informacional: é a capacidade e habilidade da pessoa realizar atividades práticas usando a informação que elaborou e o conhecimento que possui em prol do sucesso de um empreendimento ou empreitada que deve ser executada. Este termo “competência informacional” é muito usado por profissionais da ciência da informação e biblioteconomia, sendo uma tradução para “information literacy”. É interessante ler os textos de Bernadete Campello e de Silvania Vieira Miranda para compreender como outras áreas podem nos ajudar com o tema. Podemos depreender de textos destas autoras, que a competência informacional perpassa processos de negócio, gerenciais ou técnicos, sendo desejável, para os mais variados profissionais, atividades e organizações. Para ter competência informacional a pessoa deve ser capaz de elaborar a informação de forma crítica, usar a informação com criatividade, aprender com independência e pela interdependência, reconhecer a importância da informação para resultados mais duradouros e praticar comportamento ético em relação à informação.

Competência Organizacional: a competência formada pelo conjunto das competências individuais para realizarem atividades práticas em prol dos resultados empresariais. Não existe competência organizacional sem socialização e neste sentido, nem competência informacional. Para gerar competência informacional para a organização é preciso que as partes (pessoas) estejam preparadas e mobilizadas, que haja espaço de compartilhamento para vivenciar a informação. É preciso falar sobre os números, discutir, ouvir o tácito, reunir e debruçar com ética e tempo sobre os dados, criar massa crítica para evoluir e ter ideias criativas. As empresas têm que correr das soluções simplistas que no final geram grande complicação. Os “chefes” têm que se envolver e acompanhar o raciocínio balizado pela competência informacional, não achar que já sabem tudo, que já entenderam, delegando totalmente tanto a inteligência quanto a execução.

Execução inteligente:

Larry Bossidy & Ram Charan (Execution, 2002) são duros com os lideres em seu livro sobre execução. No prefácio é apresentada a seguinte definição para Execução:

“(1) O elo perdido (2) A principal razão por que as empresas acabam não cumprindo suas promessas (3) A lacuna entre o que os lideres das empresas querem atingir e a habilidade de sua organização para conseguir atingir (4) Não simplesmente táticas, mas um sistema para conseguir que as coisas aconteçam através de questionamentos análise e acompanhamento. Uma disciplina para mesclar estratégia e realidade, alinhando pessoas e objetivos (5) Uma parte fundamental da estratégia e dos objetivos de qualquer líder (6) Uma disciplina que requer entendimento abrangente de um negócio, do seu pessoal e seu ambiente (7) A forma de unir os três processos chave: pessoas, processos e plano operacional para conseguir que as coisas aconteçam no prazo.”

Todos os termos anteriormente apresentados (dado, informação, conhecimento e competência) estão geralmente ligados à palavra inteligência – para a qual o Michaelis tem definição bem precisa – a partir do Latim e do Inglês: (1) do latim “intelligentia” : Faculdade de entender, pensar, raciocinar e interpretar; entendimento, intelecto ; Compreensão, conhecimento profundo; Capacidade de resolver situações novas com rapidez e êxito (medido na execução de tarefas que envolvam apreensão de relações abstratas) e de aprender, para que essas situações possam ser bem resolvidas. (2) no inglês “intelligence” também aparece como Serviço de informações.

A inteligência só é efetiva na execução. Conforme bem lembra Larry Bossidy & Ram Charan : de um lado é necessário conceber ideias, estabelecer um quadro mais amplo usando a intuição e a informação, do outro deve-se transformar estas ideias em ações executáveis. Trata-se de uma atividade analítica, que necessita de grande desafio intelectual e emocional para chegar ao cerne das questões, através de uma investigação persistente e criativa. Os autores exemplificam uma revisão orçamentária onde um líder, apto ao processo de execução, não aceita simplesmente os números e pergunta:

“De onde virá este aumento? Quais produtos gerarão esse aumento? Quem irá compra-los e que discurso de vendas vocês irão desenvolver para esses clientes?...”

“Se um marco não foi atingido no final do trimestre, lança-se sinal amarelo: alguma coisa não está indo conforme o planejado e requer mudanças”.

Neste sentido a informação deve ser guiada pelas perguntas críticas de negócio, que nascem no planejamento e na execução inteligente, que geram parâmetros de acompanhamento. As empresas devem aprender a não separar tanto o planejamento da ação e sim procurar fortalecer o caminho entre o aprender e o fazer. Usar melhor seus dados, entidades matemáticas afeitas aos modelos que despertarão o raciocínio, que interpretados e visualizados por pessoas que possuem conhecimentos prévios podem ser compartilhados e enriquecidos através do diálogo.

Assim, é possível gerar ideias, soluções criativas, que partiram de pessoas capazes de interpretar problemas organizacionais, que antecipam os sinais fortes e fracos escondidos nos dados, informações e conhecimentos. Ao executar devolve-se para a empresa resultados que, em forma de dados, retroalimentam a cadeia de aprendizado e execução.

Para que este fluxo deixe de ser teórico e transforme-se em prática, são necessários processos, pessoas e tecnologias amparados por lideres com competência informacional. Para desenvolver suas equipes, estes lideres devem compreender que “complexo” significa : “aquilo que é tecido em conjunto”, usando o sentido etimológico latino empregado por MORIN (1977).

A seguir finalizamos com sugestões que podem ajudar nesta jornada:

- Use os dados como entidades matemáticas em busca de resposta para hipóteses que nascem nos negócios. Construa modelos que revelem as diferentes dimensões de um problema. Modelos podem ser úteis para a compreensão de realidades complexas. Capacite suas equipes para lidar com eles como forma de ativar o raciocínio.

- Invista em explorar os dados visualmente, de forma que o menor grão esteja sempre à disposição para confrontar com a realidade.

- Submeta os dados às pessoas, faça com que discutam e interajam para que criem significado e processem informações. Incentive que também desconfiem dos dados e que se algo não está bem compreendido – precisa ser investigado.

- Identifique oportunidades de fazer melhor ou diferente durante estas conversas. Avalie oportunidades para inovar – melhore a capacidade das pessoas para lidarem com a informação – disponibilize ferramentas interativas e não apenas apresentações estáticas.

- Discuta as informações com grupos diversificados, coloque as equipes de negócios e os responsáveis pelos sistemas de informação em conjunto para que levantem hipóteses e criem um sentido coletivo para o que vem à compreensão.

- Use a informação e o conhecimento das pessoas de forma analítica: estabeleça planos com passo a passo, baseados em perguntas e respostas para questões críticas.

- Execute os planos e estabeleça os parâmetros para acompanhamento. Eleja os indicadores, seja ágil para mensurar os resultados, dê feed back, faça perguntas e refaça os planos quando necessário.

- Tome os dados, as informações e o conhecimento como o elemento de raciocínio empresarial – assim, pode-se ampliar as chances de uma execução inteligente.

Links Referenciados:

SETZER,
https://www.ime.usp.br/~vwsetzer/dado-info.html;
acessado em 05/03/2016

CAMPELO,
http://www.scielo.br/pdf/ci/v32n3/19021.pdf;
acessado em 06/03/2016

MIRANDA,
http://www.brapci.inf.br/_repositorio/2010/02/pdf_9422f0c8f8_0008165.pdf;
acessado em 06/03/2016



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