Receita que não deu certo

Risco & Recompensa, 10/12/2015

A política econômica do Governo pautou-se, no passado recente, por diretrizes consideradas estratégicas: facilitar o crédito para pessoas físicas, promover o consumo, editar desonerações tributárias pontuais para setores industriais selecionados. Com a força da demanda interna, as autoridades econômicas esperavam estimular o desenvolvimento, assegurando o crescimento do PIB e o bem estar da população.

Até 2010, ventos favoráveis soprados pela economia internacional, favoreceram a economia brasileira e, nesse mundo de bonança, passamos a conviver com sobrevalorização cambial, aumento das importações, viagens e compras no exterior. Ao mesmo tempo, os investimentos iam ficando no limbo. Com o tempo, as coisas mudaram.

A economia internacional alterou radicalmente sua dinâmica nos últimos anos. A China modificou o passo dos seus negócios mundiais e está crescendo menos, fazendo com que a demanda de “commodities” do Brasil (minérios e alimentos) caísse, afetando a balança comercial. A crise europeia deu, igualmente, sua contribuição para que os negócios na economia mundial se arrefecessem. Sem o influxo externo, a bonança se esvaiu. Internamente, os investimentos escassearam e o crédito, via bancos oficiais, entrou em campo. Veio, então, o contraponto: queda vertiginosa da demanda, desemprego, alta generalizada dos preços, recessão. Enfim, um mar de angustias.

Em outubro passado, a taxa de desemprego, de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE, chegou a 7,9%, a taxa mais alta para o mês desde 2007. O conjunto dos desempregados alcançou 1,9 milhão de pessoas, número estável quando comparado com o do mês anterior. Na série histórica, essa foi a maior variação percentual da população desocupada.

Em termos de elevação dos preços, praticamente já chegamos, nos últimos doze meses, à inflação de dois dígitos. O IPCA, índice oficial calculado pelo IBGE desde 1980, e que se refere às famílias com rendimento monetário mensal entre um e quarenta salários mínimos, apresentou valor acumulado no período de novembro de 2014 à outubro de 2015, da ordem de 9,93%. Essa variação anual é, historicamente, a maior desde novembro de 2003, quando chegou a 11,02%. A coleta de preços do IPCA é realizada em estabelecimentos comerciais, prestadores de serviços, domicílios e em empresas concessionárias de serviços públicos. Abrange 13 regiões metropolitanas.

Em outubro último os preços subiram 0,82%, valor 0,28% maior que o aumento verificado no mês de setembro (0,54%) e, igualmente, maior que o registrado em outubro do ano passado (0,42%). O valor acumulado chega a 8,525%, bem distante da meta (4,5%) e mesmo do teto dessa meta. Desde 2002 o mês de outubro não registrava taxa tão elevada. Naquele ano, o aumento dos preços em outubro foi de 1,31%.

Com o crédito fácil para estimular o consumo e fazer andar a economia, as famílias brasileiras se endividaram, conforme atestam pesquisas da Confederação Nacional do Comércio-CNC. Muito embora o percentual de famílias com dívidas tenha ficado, em outubro último, menor que o registrado no mês de setembro (62,1% contra 63,5%), de acordo com dados da PEIC-Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, o fato é que esse endividamento é preocupante. A pesquisa da CNC mostrou também que após sete meses seguidos de alta, o indicador que mede o total de famílias com dívidas ou contas em atraso ficou em estável em outubro em relação a setembro, acrescentando que 8,5% das famílias afirmaram não ter condições de pagar essas contas, refletindo o desequilíbrio dos orçamentos familiares com o advento do desemprego, rendimentos em declínio, juros nas alturas e crédito mais caro.

As famílias brasileiras estão enfrentando sérios problemas para sobreviver. Colocaram em risco suas posições no mercado e na sociedade e estão se expondo ao sacrifício de enfrentar as feiras para “limpar o nome”, tentando um acordo com os credores. O desemprego já pôs na rua cerca de um milhão de trabalhadores, sem contar os jovens que pretendem ingressar no mercado de trabalho e que não encontram oportunidade, cerca de 800.000 a cada ano.

O crescimento econômico desapareceu e não deve “dar as caras” em 2015. E muito menos em 2016. O panorama político não fornece indícios de que as medidas capazes de concretizar o tão buscado ajuste fiscal sejam aprovadas a tempo pelo Congresso Nacional. Assim, as contas públicas oferecerão, no final do exercício, um quadro tenebroso, ornado com déficities e . . . mais déficities. Por seu lado, o PIB ficará ainda menor. Dados recentes indicam que, com consumo em baixa e investimentos inexistentes, a contração será, no mínimo, de 3%. E muita gente acredita que o pior ainda está por vir.

O tripé crédito, consumo e desenvolvimento, definitivamente, não deu certo. Precisamos, antes, de competência na gestão, combate rigoroso à inflação, investimentos produtivos e, consequentemente, emprego.



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