Desarranjos na Siderurgia

Risco & Recompensa, 13/11/2015

Notícia veiculada recentemente informa que a Usiminas vai desativar grande parte da produção na usina de Cubatão (a antiga Cosipa) e, em sequência, demitirá cerca de 4.000 trabalhadores, entre empregados e prestadores de serviços terceirizados. De acordo com informações do Instituto Aço Brasil (antigo Instituto Brasileiro de Siderurgia – IBS), a Usiminas atende mercados de alto valor agregado, como o automotivo e o de máquinas e equipamentos, além de ser a única fornecedora de aço para a indústria naval, também em séria crise.

Na raiz do problema estão o prejuízo anunciado para o terceiro trimestre deste ano, da ordem de R$ 1,042 bilhão, o endividamento e, também, o desentendimento entre os principais sócios. Com sede em Belo Horizonte (MG) e usinas siderúrgicas em Ipatinga (MG) e Cubatão (SP), a Usiminas tem capacidade para produzir 9,5 milhões de toneladas de aço por ano e emprega perto de 25 mil profissionais.

A Cosipa foi privatizada em agosto de 1993, no contexto do Plano Nacional de Desestatização, que havia começado em 1991. No ano em que ela passou para o comando da Usiminas, 70% da produção nacional de aço foi produzido pelo setor privado.

Ainda segundo o Instituto, a produção brasileira de aço bruto, acumulada nos nove primeiros meses de 2015, totalizou 25,3 milhões de toneladas de aço bruto e 17,4 milhões de toneladas de laminados, e representou quedas de 1,2% e de 8,2%, respectivamente, sobre o mesmo período de 2014. Por sua vez, as vendas de produtos siderúrgicos ao mercado brasileiro em setembro de 2015 tiveram uma queda de 20,7% em relação a 2014, chegando a 1,5 milhão de toneladas. Em todo o ano de 2015 (até setembro) as vendas acumuladas somaram 14,2 milhões de toneladas, revelando uma redução de 14,3% com relação ao mesmo período do ano anterior.

A situação reflete as condições atuais vividas pela economia brasileira e a pequena penetração da siderurgia brasileira no mercado internacional, nestas descontadas as operações "inter companies". Todos conhecemos o pífio desempenho, em anos recentes, da indústria automotiva brasileira: vendas em declínio, estoques em alta, "lay offs", desemprego. E isso não vem acontecendo somente com a indústria automobilística, toda a cadeia da indústria de transformação está trabalhando abaixo da capacidade, com elevado índice de ociosidade, padecendo dos mesmos males. Por seu lado, as vendas de aço para o mercado externo de há muito não correspondem àquilo que poderia constituir-se num alento para a Balança Comercial do país. Continuamos exportando minério de ferro e, mesmo assim, nosso principal cliente, a China, anda comprando menos. O chamado "custo Brasil" conduz o preço do aço brasileiro a patamares ligeiramente superiores aos do mercado internacional e, assim, todos esses fatores, articulados, levam à diminuição forçada das vendas e, consequentemente, das atividades do setor. O roteiro é simples e direto: vendas em queda, diminuição da produção, prejuízos, endividamento, desemprego, crise.

Fixemo-nos em apenas uma questão, dada sua repercussão na economia e na sociedade, a do emprego. Imagine o caro leitor/internauta o drama daqueles que serão demitidos. Na siderurgia, onde a especialização é regra, os técnicos ostentam em média, mais de 10 anos de casa. O desemprego gera ansiedade, depressão, traz preocupações com o futuro, diminui o consumo, eleva o nível de inadimplência. É uma crise, por sua natureza, econômica, mas que também é, caracterizadamente, social, dado o ruinoso clima coletivo e o péssimo ambiente familiar que acaba gerando.

É lamentável constatar, mas a economia brasileira segue ladeira abaixo e leva consigo setores estratégicos, como o da siderurgia, que já viveu tempos melhores, como no final dos anos 90. O segmento está privatizado, mas os problemas que o afligem encontram-se no mercado, com uma demanda insuficiente, fruto da grave crise que aflige o país. Sem confiança, sem crescimento, em alguns casos, sem rumo, como na indústria naval, os resultados imediatos e previsíveis são a paralização de setores e demissões.



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