Sem educação, tecnologia e crescimento serão para poucos

Risco & Recompensa, 28/08/2015

Nos cenários futuristas de algumas décadas, costumava-se pensar como seriam os avanços da humanidade que se seguiriam à passagem dos anos no segundo milênio. Ainda hoje, diversos cientistas e pesquisadores tentam desvendar e dar um panorama do que podemos entender e esperar do que se chama “futuro”, especialmente com a velocidade de evolução da tecnologia. Em 2012, Michio Kaku, um dos maiores nomes da física teórica do mundo na atualidade, passou rapidamente pelo Brasil e falou com muita desenvoltura e simplicidade sobre os rumos da tecnologia e os seus reflexos sobre a humanidade.

De banheiros inteligentes até óculos que permitem uma realidade aumentada, escassez de empregos e a cura do câncer, o físico co-criador da teoria do campo de cordas mostrou que, dentro da divisão das gerações tecnológicas, hoje vivemos na chamada terceira onda, na qual presenciamos equipamentos de qualidade que permitem a conexão com outras pessoas em todos os lugares, como smartphones, tablets, microcomputadores e outros gadgets. Segundo ele, já estamos indo rumo à quarta onda, ou seja, a da biotecnologia e a nanotecnologia, que juntas permitirão que o futuro da raça humana seja muito diferente do que temos hoje.

É verdade. Quando se fala em tecnologia, as únicas constantes que conhecemos são a inovação rápida e as mudanças frequentes.  Entretanto, se olhamos para a realidade brasileira e de sua população de modo mais genérico, e não somente do recorte tecnológico percebemos um abismo imenso que se abre em relação ao estágio em que se encontra a evolução tecnológica e o verdadeiro acesso da população a essa realidade, especialmente quando se leva em conta o déficit educacional que tem o país.

Para ter uma ideia, enquanto estamos falando da chegada da nanotecnologia, biometrias e os próximos passos, o Brasil ainda está entre os 10 países responsáveis por 72% dos analfabetos no mundo, ocupando a oitava posição, com cerca de 13 milhões de pessoas, segundo o último Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos, da Unesco.

Em junho do ano passado, o Governo Federal sancionou a lei que estabelece as 20 principais metas e desafios do PNE – Plano Nacional de Educação nos próximos 10 anos.  Todas, no geral, levam a uma ressignificação do que existe hoje em termos de educação no Brasil,  desde a oferta de vagas, atração de adolescentes para o ensino médio, a valorização financeira e simbólica dos docentes, superação de desigualdades, inclusão e diversos outros pontos que levam a repensar e construir um novo modelo.

Mas não é só papel do governo federal pensar o novo modelo, muito menos a abrangência da educação. Levando em conta que estamos correndo atrás do prejuízo e devemos trabalhar o modelo em toda camada etária, é necessário pensar e implementar a educação em todos os seus níveis, inclusive a financeira.

Óbvio que não se pode exigir de uma população atrasada em termos de educação e capacitação, o interesse ou a desenvoltura em entender a importância do dinheiro, do planejamento, de ferramentas como o crédito, ou do seu papel como população ativa e consumidora dentro do equilíbrio econômico de um país. Mas é importante iniciar de algum lugar.

Hoje, a educação financeira não tem a mesma importância de discussão que os avanços tecnológicos dentro na indústria de crédito, por exemplo. Muitos esforços de empresas dessa indústria são voltados a descobrir e implementar inovações no mercado, alta tecnologia e estar um passo à frente do seu tempo. Não digo que devemos sentar e esperar que o contexto mude para seguir, pois isso é um problema de gerações, mas será que não estamos avançando em um campo enquanto o básico é deixado de lado?

Dentro de uma mesma empresa, metas e discursos diferentes colocam a oferta massiva de crédito ao consumo e a educação financeira em lados opostos, quando no final do trajeto está um mesmo consumidor, ainda sem entender por que há tantos discursos diferentes que saem da mesma indústria. Se entender é difícil imagine optar por um desses lados.

Todos entendem e defendem a importância de interseccionar esses caminhos para a sustentabilidade e perenidade do negócio e por que não dizer do futuro. Difícil é começar, mas uma vez iniciado, esse é o início de todas as revoluções e seguramente um passo certeiro para o crescimento.



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