Brasil, confiança e credibilidade!

Risco & Recompensa, 14/08/2015

O prezado internauta, por precavido que certamente é, não chegou a ficar na iminência de ser negativado pelos órgãos responsáveis pelo cadastro de maus pagadores, como o SPC ou Serasa Experian. Mas, deve conhecer as agruras para se livrar dos inconvenientes trazidos por esta situação: dificuldades para comprar a crédito, cancelamento do cheque especial, do cartão de crédito, nome sujo na praça. Nessas condições, “limpar o nome” é tarefa árdua, porém necessária. O Brasil enfrenta essa dramática circunstância.

No caso de países, as agências de classificação de risco utilizam linguagem mais elegante, pelo menos na forma. Não se fala em negativação, mas de rebaixamento da nota. A Standard & Poors, uma das principais agências que atuam no ramo, ao lado da Moody’s e da Fitch Ratings, classificando países e empresas quanto à capacidade de se constituírem em investimento seguro, mudou a perspectiva da nota de crédito em moeda estrangeira do Brasil, de estável para negativa. E alertou para a possibilidade de tirar do país o tão precioso “grau de investimento”.

Caso venha a descer mais um degrau, da mesma forma que o cidadão a ser negativado, o país perderá a condição de devedor confiável, obtida no final da última década, indo para a de “investimento especulativo”, que resultará em dificuldades negociais e aumento nos encargos para financiar a dívida mediante novos empréstimos.

Estamos na corda bamba e este é o receio das Autoridades econômicas, pois, o horizonte não mostra sinais de recuperação da economia. O ajuste proposto pelo Ministro da Fazenda logo no inicio do segundo mandato da Presidente não apresenta sinais de que será concretizado e que o PIB só voltará a crescer dentro de um par de anos, talvez lá para 2018. A travessia, no linguajar oficial, será longa.

O déficit nas contas do Governo, tornado público no final de julho último comprova que as despesas continuam superando (e muito) as receitas, uma vez que o nível da atividade econômica permanece aquém das expectativas, com investimentos em baixa, desemprego e inflação em alta. Precavidamente, as metas do superávit primário foram minimizadas. Estamos paralisados aguardando a retomada do crescimento para fugir do rebaixamento anunciado. Mas questionando: onde estará o caminho da redenção?

Esta só concretizará com a existência de duas condições fundamentais e estratégicas, a confiança e a credibilidade. Sem elas, quem se atreverá a investir? O empresário privado, agindo de maneira racional deixará de lado o tão falado “espírito animal”, não vai arriscar seu capital em um ambiente no qual não acredita e não confia. Convivendo com uma situação de déficit nas contas públicas, o governo, por sua vez, não dispõe de recursos para gastos dessa natureza.

O PAC-Programa de Aceleração do Crescimento, principal instrumento governamental para “dinamizar” a economia está capengando e deverá sofrer uma quase-paralização neste ano que afetará o desenvolvimento de importantes projetos sob responsabilidade governamental: Eixo Sul da Ferrovia Norte-Sul, Ferrovia de Integração Oeste-Leste, Ferrovia Transnordestina, Transposição do São Francisco, Usina Nuclear Angra-3, Refinarias Abreu e Lima e Comperj. Por isso, vem recorrendo, cada vez mais, ainda que sem muito sucesso, aos programas de concessões, sobretudo em segmentos da infraestrutura. Sem confiança e credibilidade não há investimentos, sem investimentos não há crescimento.

O quadro, como se vê, é de estagnação e recessão, e com desemprego e inflação reduz-se o poder de compra do cidadão-consumidor. Os dados sobre a alta dos preços revelam um quadro desanimador: até julho, o IPCA, calculado pelo IBGE, havia chegado a 6,83% e, nos últimos doze meses, o aumento foi de 9,56%, ou seja, muito longe da meta de 4,5% estabelecida pelo Banco Central.

A conjuntura econômica está ruim e estruturalmente a situação não é melhor. Carecemos de um rearranjo firme e robusto capaz de repor a confiança e a credibilidade perdidas. No curto prazo, o Governo precisa dar o exemplo, reequilibrando suas contas e mostrando, se possível, o caminho do crescimento que todos queremos trilhar. Do ponto de vista estrutural são necessárias reformas consistentes, começando com a tributária, indo até à política. Mas, com aqueles problemas, o abandono de metas é confissão de culpa e não indicador de melhoras. Consequentemente, o país pode ser “negativado”. E aí . . .

(*) - Economista – FEA-USP



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