Brasil, Passado & Futuro: O que faremos diferente ?

Risco & Recompensa, 03/07/2015

O Brasil dos anos 90 foi marcado por reformas estruturais que impulsionaram a privatização e reorientaram a política social. Após o Plano Real, o Brasil sofreu com diversas crises mundiais, como apresenta o Gráfico 1. Estas crises tiveram origem em lugares diferentes no mundo incluindo o México (Dezembro de 1994), a Ásia ( Julho de 1997), a Rússia (Agosto de 1998) os Estados Unidos, com o colapso do fundo LTCM, (Long-Term Capital Management; Setembro de 1998). Na sequência veio a Bolha da Internet em 2001. Após 2003, favorecido pela inexistência de crises internacionais, o Brasil acelerou medidas que ampliaram o consumo e houve crescimento do PIB. Estas novas condições foram abaladas posteriormente pela crise internacional de 2008/2009, seguida de uma breve recuperação favorecida pela Economia Chinesa (importador de commodities) e por medidas internas para a manutenção e estímulo ao consumo. O cenário recente tornou-se bem mais complicado, não só do ponto de vista econômico como politico.

O presente texto olha para passado através do Gráfico1 e convida a olhar para o futuro. Toma o ano de 2030 apenas como uma referência simbólica, próximo do período onde termina a “janela de oportunidade” demográfica (Gráfico 2). Infelizmente o Brasil perdeu o período de voo de cruzeiro (sem crises externas 2002 - 2008) deixando de investir na infraestrutura e em pessoas – condições que facilitariam os desafios populacionais que o Brasil terá pela frente.

O assunto não é novo. Segundo Alves (2006) a alteração da estrutura etária populacional acontece em fases sequenciais: (1) reduzindo o peso relativo das crianças e aumentando, o número de adultos em idade ativa ; (2) no período posterior aumenta a quantidade de idosos. Desta forma percebe-se pelo Gráfico 3 a diminuição na taxa de dependência demográfica nos dias atuais. Com a permanente queda da fecundidade, a taxa de dependência vai se reduzindo e deve permanecer em seu valor mais baixo entre 2015 e 2025. Neste período, a dependência infanto-juvenil (0 a 14 anos) continuará caindo persistentemente, no entanto a elevação da dependência dos mais velhos (65 anos e mais) aumenta e a partir de 2030 e termina “bônus demográfico”. Melhor que “bônus” é chamar este momento de “janela de oportunidades” (como propõe Borges et al, 2015, IBGE). Para gerar o “bônus” o Brasil precisaria ter maior competitividade, mais e melhores empregos e economia mais robusta em diferentes regiões.

O estudo “Envelhecendo em um Brasil mais Velho” (BANCO MUNDIAL, 2011) trouxe análises sobre as implicações do envelhecimento populacional para o crescimento econômico, redução da pobreza, finanças públicas e prestação de serviços. Delfim Neto, certa vez perguntou em um de seus artigos em jornal: será o que o Brasil vai envelhecer antes de enriquecer?

Segue abaixo uma projeção para as taxas de dependência e a janela de oportunidade – cada vez menor. Esta projeção foi feita pelo IBGE com base em dados de mortalidade, fecundidade, migração, nascimentos e óbitos, assim é possível projetar a evolução da demografia brasileira até o ano de 2060. Esta e outras projeções foram apresentadas em infográficos muito bem construídos por Daniel Lima utilizando o IBGE e o software Tableau®.

Tão impactante quanto a análise desta curva é o formato da “pirâmide etária” que aos poucos deixa de ser pirâmide.

Pelos gráficos acima podemos perceber que a “pirâmide” de 2000 aos poucos ganha novo contorno. Minha mãe fez trajetória completa e conseguiu chegar até os 90 anos em 2015. Pelas estimativas existem 500 mil pessoas no Brasil com esta mesma faixa etária. Caso eu sobreviva o mesmo tempo que minha mãe terei aproximadamente 4 milhões de pessoas com esta mesma idade quando chegar aos 90 anos. Estes números não são impactantes? Será que existirão filhos dispostos a cuidar de seus pais? As escolas públicas terão virado abrigo de idosos? As projeções poderiam ser modificadas por uma nova onda de imigrantes chegando ? As estatísticas atuais apontam para estrangeiros Bolivianos, Africanos e Asiáticos, muitos vindos em caráter ilegal, o que aumenta a carga de dificuldades. Mas, uma coisa é certa, o conceito de pessoas em idade ativa deve mudar.

Profissionais qualificados, após 50 anos, começam planejar a carreira 2.0. Mas isso seria verdade para a maioria dos brasileiros? Como as pessoas com menor instrução e conhecimento poderão planejar suas segundas carreiras? É aí que começa a doer o fato de termos “vendido o almoço para comer o jantar”, focados em consumo, assistencialismo e aparelhamento estatal. Desde Amartya Sem e Mahbub ul Haq ( criadores do IDH) que pobreza é entendida como “privação de capacidade” . Desde a Mesopotâmia, os que dominavam a escrita puderam se tornar o primeiro clero, então não dá para pensar em geração de capacidade sem pensar numa população educada (de verdade).

No dia a dia, no local onde trabalho, estratificamos a sociedade em “Personas”, assim não perdemos a noção de que os indicadores sociais e econômicos estão ligados às pessoas e é para elas que criamos produtos e serviços, é para elas que o poder público governa. A ilustração abaixo representa os “Personas” desenvolvidos para compreender a população brasileira e utilizado para analisar mercados, portfólios de clientes e “prospects”.

No eixo vertical temos a afluência – que é uma medida que resume: a renda, o acesso a bens e serviços, à educação, à capacitação e formação profissional. No eixo Horizontal temos a idade agrupada em ciclos de vida. Para cada ciclo de vida temos, de forma simplificada, três subdivisões por afluência.

Um ciclo de vida que se encontra antes de todos, e não está representado na figura, é o das crianças e adolescentes (de 0 a 14 anos). Cuidando da maioria deste grupo temos hoje as pessoas mais pobres da população.

Considerando as projeções baseadas nos dados publicados pelo IBGE temos a seguinte estimativa (simplificada) para os quantificar as “Personas”.

Ao observar estes dados deveríamos, como administradores de empresas, considerar a recomendação de Peter Drucker e analisar cuidadosamente as “descontinuidades”, tomando-as como fonte de ideias e inovação. Entretanto estamos vendo perpetuar nesses números um padrão de país pobre em possibilidades e velho pela idade (uma bomba relógio).

Fica difícil colocar um final simples nesse artigo, pois a perda da janela de oportunidades deve-se a um pano de fundo sobre o qual precisamos agir. Lendo hoje pela manhã o texto de Gustavo Franco no “Estado de São Paulo” (Capitalismo Companheiro), que fala do relacionamento do público e do privado em regimes “pró- negócio” e “pró-mercado”. No pró-negócio o público e o privado estão embaralhados: “os objetivos são privados e a eficiência é pública” – ou seja : pior dos mundos . É neste modelo que estamos vivendo. A crise da Ásia e a crise da Rússia, apresentadas no primeiro gráfico, foram crises provocadas por regimes “pró-negócio”. Na crise da Ásia os tigres tiveram suas garras cortadas, retroagiram em políticas protecionistas e boas apenas para grandes grupos nacionais.

Depois veio a crise da Rússia onde as privatizações aconteceram de forma nebulosa misturada com o “aparelho estatal” levando a um capitalismo afetado por esquemas pessoais, clientelismos, nepotismos e corrupção. Esta fórmula já está fracassada historicamente e seguindo este caminho perpetuamos nossa miséria, vivemos num mundo de privilégios para uma pequena casta empresarial. Este regime que mistura estado e empresas privadas é o pior tipo de capitalismo que pode existir. Segundo Gustavo Franco “representa a privatização do estado e o capitalismo degenerado”.

Infelizmente, ou de certa forma felizmente, estamos esperando a justiça punir este capitalismo pró-negócio que nos trouxe a uma crise que não é mais pelo “cronismo” alheio (asiático, russo). O “cronismo” é nosso e devemos trabalhar para bani-lo. Cronismo é um termo usado por Gustavo Franco e que aparece no jargão dos economistas para tratar o aparelhamento do Estado (pelos companheiros). Carneiro, do Departamento de Economia da PUC-Rio já alertava para o cronismo em 2005 : “um fenômeno que limita a plena exploração das oportunidades de crescimento : a qualidade do processo de geração de políticas públicas” (...) os piores efeitos do cronismo são a corrupção, a extravagância no uso da coisa pública, a falta de transparência nas decisões, o desperdício, a montagem de sistemas cruzados de pagamentos (...) um sistema viciado e confuso de decisões de investimento, que termina por diminuir a eficiência e compromete o crescimento econômico”. (http://iepecdg.com.br/Arquivos/ArtigosDionisio/Esp050930.pdf)

Ser criativo e participativo nestas épocas – está difícil, não é? – Mas é o que resta aos empresários que não fazem parte do mundo de privilégios e dos jeitinhos. Como empresários devemos ser mais ativos politicamente no sentido de exigir a retomada do capitalismo “pro-mercado”, fundamentar nossas decisões na competição, na impessoalidade, na democracia, na busca das virtudes. Vale lembrar que sempre existirá um lado ruim (quanto menos educadas forem as pessoas), mas não tão perverso arbitrário e cheio de irregularidades como o atual (“pró-negócio”).

A partir dos números apresentados convido os leitores a refletirem sobre seus negócios e mercado, sobre sua atuação na sociedade. Vamos tentar chegar em 2060 diferentes? Para isso é preciso mais que um artigo, talvez seja necessário um fórum.



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