Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil aborda a possibilidade de crescimento da economia brasileira

Risco & Recompensa, 01/06/2015

A forte e recente desaceleração da economia brasileira é tema que vem ocupando a atenção de boa parte dos economistas. De um crescimento de 7,6%, em 2010, passamos para uma taxa de 0,1% em 2014. Estagnamos, numa parada mais brusca do que a sentida por nossos pares emergentes, e no horizonte próximo poderemos inclusive regredir. Projeção do FMI, divulgada em abril, aponta para uma queda de 1% do PIB em 2015. As promessas de futuro foram adiadas, depois da euforia que marcou os primeiros anos do milênio. Por quê, afinal?

De meados da década de 90 até a chegada dos anos 2000, o país cresceu à taxa média de 2,87% ao ano. Nos 10 anos seguintes, essa taxa subiria para 3,71%, mesmo com a crise no meio do caminho. O desempenho brasileiro encheu os olhos do mundo.

Mas o otimismo era datado. Puxado pela subida dos preços das commodities e a melhora na balança comercial, o país não tardou a sentir os efeitos do fim da bonança externa. O esforço anticíclico iniciado no auge da crise foi mantido. Ainda depois da fase mais aguda da depressão, os bancos públicos consolidaram seu protagonismo, a taxa de juros foi reduzida e vários setores foram contemplados com incentivos fiscais. O investimento, no entanto, não respondeu: passou de 20,5% do PIB, em 2010, para 19,7% em 2014.

As manifestações de 2013 são um bom divisor para marcar a mudança de humor com relação ao país. Detonada pelo aumento das tarifas de ônibus, a insatisfação com a política e com serviços públicos criaram um clima de descontentamento e atingiu a confiança nos rumos da economia. Em 2014, as incertezas próprias de um ano eleitoral, a expectativa de descumprimento da meta de superávit primário pelo terceiro ano consecutivo e a aceleração dos preços, acabaram por mergulhar, de vez, o país numa crise de confiança que se procura contornar, agora, com a promessa de um ajuste fiscal e tarifário. O resultado foi a estagnação.

Estagnação e pressão inflacionária, ao mesmo tempo. O quadro exigia um plano de ajuste crível e sem demora, fiscal e monetário: o primeiro passo foi o início de uma nova rodada de aumento da Selic, que subiu 3,25 pontos percentuais, e o estabelecimento de uma nova meta de superávit primário (1,2% do PIB), depois de um déficit de 0,67% no último ano.

O efeito colateral da “terapia” é o crescimento negativo anunciado para 2015. Mas nem tudo é má notícia. O risco de rebaixamento da nota de crédito brasileira foi adiado por um momento e a expectativa de inflação para 2016 começa a declinar lentamente. Formuladas, a princípio, para pôr em equilíbrio as contas públicas, as medidas provisórias submetidas ao Congresso, têm, ainda, a virtude de corrigir distorções no seguro desemprego e benefícios previdenciários.

A questão que surge, e que verdadeiramente importa, é sobre o futuro. E depois da crise? Se voltarmos a crescer no mesmo ritmo de antes, ainda assim será longa a caminhada do desenvolvimento. Será preciso uma agenda positiva que preserve as instituições democráticas, supere o gargalo da infraestrutura, reforme a educação e estimule os ganhos de produtividade. Na condução da política econômica, a crise será oportuna para reafirmar o compromisso com a Responsabilidade Fiscal e com combate à inflação. Se quisermos ser o país “do futuro”, precisaremos olhar para o longo prazo.



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