Internet das Pessoas, não das Coisas

Risco & Recompensa, 31/03/2015

Daniel Melo, Diretor sênior da FICO, dá um passo à frente da internet das coisas para falar de modelos preditivos de pensamento, e como podemos digitalizar a identidade sem perdê-la.

Ultimamente, fala-se muito da “Internet das Coisas”, todos os dispositivos conectados à Rede – e todos os dados que este feito gera – mas nos esquecemos de que realmente a “Internet das Coisas” deveria se chamar “Internet das Pessoas”, porque esses dados produzidos são, na realidade, informações muito relevantes – se houver conhecimento para analisar – sobre cada um de nós.

O Big Data está permitindo que nós, os seres humanos, nos digitalizemos, ou seja, que existam máquinas que permitam descrever em modelos o que fazemos, o que fizemos e o que é provável que façamos, convertendo o homem em uma construção matemática que outros possam estudar para tomar decisões.

Por ora, não é possível criar modelos preditivos de pensamento, mas, sim, estão sendo produzidas conclusões sobre as formas mais preditivas de comportamento. Como é possível fazer isso? Tanto cientistas quanto filósofos estão de acordo com que a humanidade não é fácil de definir. Porém, sim, consideramos o que contam os investigadores da Universidade de Oxford, somente os seres humanos contam com duas características que lhes tornam especiais: o planejamento avançado e a capacidade de decisão. E é aqui onde a analítica preditiva pode jogar com vantagem. Seremos capazes de criar um modelo matemático da “humanidade”? Poderemos incluir dados suficientes nesse modelo como para criar um algoritmo que preveja de forma acertada nossas decisões?

Em um nível um tanto quanto superior, já estamos fazendo isso. Por exemplo, já somos capazes de criar modelos de risco sobre créditos ao consumo com altos níveis de previsibilidade. Contudo, há uma diferença clara: esses modelos não preveem se um cliente, de forma individual, falhará no pagamento. O algoritmo define os riscos dentro de um contexto de população muito maior. Ou seja, os modelos não analisam os pensamentos de inadimplência de um cliente: comparam o histórico de cada indivíduo com os de seu entorno, às vezes com milhões de pessoas. E o mesmo fazem muitas vezes os técnicos de marketing para prever as compras no supermercado. Ou os responsáveis por estudos sociológicos para prever quem vencerá as eleições.

Em definitivo, estamos nadando no vasto oceano da analítica preditiva: O paciente tomará o remédio tal e qual é prescrito? O trabalhador roubará material em seu escritório? O eleitor se voltará às urnas? Quando o geek comprará uma nova tela plana? Que nível de risco assume uma empresa de seguros perante um novo cliente? É o proprietário do cartão de crédito que está realizando este pagamento suspeito? A analítica já resolve todas essas questões. Porém, agora que temos acesso a Big Data, ou seja, a milhões de dados adicionais com os que podemos prever “quase tudo” de cada pessoa.

Os modelos virtuais de objetos já existem. A chamada “Internet das Coisas” refere-se ao vasto número de objetos e dispositivos de onde emanam dados sobre sua utilização, localização e outros fatores. Porém, qualquer pessoa também oferece dados: o tempo em que está conectada à Internet, o uso que faz do aparelho celular, como realiza compras, que tipo de televisão assiste (sobretudo se assiste on-line)… todos estes dados alimentam modelos que criam uma versão digital de cada indivíduo, a chamada “Internet das Pessoas”, a crescente rede de modelos que descrevem o comportamento das pessoas e que tentam prever as condutas futuras.

Esta versão digital de si tem se convertido em algo fundamental e ainda os governos estão começando a estudar os comportamentos para tomar decisões. Como dizíamos antes, ainda não é possível modelar o modo de pensar dos indivíduos, mas cada vez são realizadas previsões mais acertadas sobre as atuações futuras. Em suma, ainda não é possível realizar modelos sobre a forma em que decisões são tomadas – umas das características inerentes ao ser humano -, mas tem-se trabalhado em prever as decisões futuras.

Este fenômeno não deixa para trás os debates sobre se é aceitável, legal e ético que uma aplicação realize trabalhos de analítica sobre um indivíduo ou sobre a sociedade. Os consumidores são cada vez mais conscientes da capacidade de acompanhamento e análise de determinadas ferramentas. E a pergunta vai muito além: quem vai se assegurar de que estes modelos são corretos e positivos? Haverá alguma consequência legal para os modelos que afete de maneira negativa um indivíduo? Quem ficará encarregado de resolver os dados e os modelos para torná-los mais precisos? E quem será beneficiado das decisões tomadas pelo indivíduo e previstas pelo modelo? É necessário redefinir o conceito de privacidade?

São perguntas necessárias para tomar consciência de uma sociedade cada vez mais digital e da forma como queremos que evolua. A Internet das Pessoas é algo relativamente novo e que crescerá muito nos próximos anos; por isso, teremos de revisar nossos acordos sobre como a analítica sobre pessoas deve ser utilizada. Não vamos fechar a fonte dos dados nem os modelos preditivos vão deixar de funcionar, mas podemos querer que esses dados não sejam manipulados em explorados.

Por fim, parecia impossível, mas a analítica do Big Data está criando um debate sobre a própria essência da humanidade: como podemos digitalizar nossa identidade sem perdê-la?



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