O impacto da era digital nas relações reais

Risco & Recompensa,14/08/2014

O desafio de escrever um texto que fale sobre relações humanas em uma época em que temos a impressão de que as pessoas se relacionam em 140 caracteres é grande. O hábito de interagir através das redes sociais trouxe um tempo de urgência, de resolver rápido sem se envolver, de ter relações e opiniões descartáveis e aceitas.

Dias atrás ouvi dizer que até mesmo relacionamentos amorosos - onde se pressupõe, houveram encontros, conversas, contatos - são terminados por meios eletrônicos, por aplicativos, dispensando até o uso do telefone, com o qual ao menos se ouviria a voz do outro.

Como esse novo padrão de interação pode afetar ou simplesmente alterar a forma como as pessoas interagem em seu dia a dia? Pais se adaptam na educação de seus filhos, inserindo as redes sociais em suas vidas. Professores buscam uma nova linguagem para atrair seus alunos e o que dizer da vida profissional que, nos dias de hoje, com relações tão efêmeras, fica cada vez mais difícil encontrar profundidade de conhecimento e de entrega. A tendência nessas instituições é a de descarte, onde tudo é trocado, escola, emprego, mas não mais o comportamento. Mudar o comportamento requer um esforço e um tempo que parecem não existir mais, procura-se o benefício imediato, a resposta rápida do ambiente e não mais das pessoas. Com o advento das redes sociais, ficou mais fácil encontrar grupos, ideias similares que corroboram para que um determinado comportamento continue existindo, mesmo que anteriormente, na sociedade em que ele fosse apresentado, não fosse aceitável. Exemplo disso é a quantidade de empresas que avaliam as redes sociais de seus candidatos às vagas de emprego, em busca de avaliação do comportamento, valores e relações com o meio em que vivem.

Quando coloquei “simplesmente alterar”, me referia ao fato de que o padrão está criado, podemos nos posicionar como afetados ou como pessoas que fazem parte do processo de transformação. O século XXI trouxe avanços na comunicação, ampliou o acesso à informação, trouxe tecnologias de conectividade que reduzem custos de deslocamentos, ampliam a educação à distância, possibilitam conferências online. Os benefícios estão à nossa disposição e são inegáveis, basta ver a quantidade de pessoas que podem ter acesso a esse texto pelos seus computadores.

Porém, é necessário compreender e adotar novos comportamentos e formas de relacionamento, sem perder os valores que mantém a sociedade e o meio ambiente saudáveis e sustentáveis. Talvez aqui esteja um dos maiores desafios, pois valores como respeito, solidariedade e amor, já estavam se perdendo, não eram sólidos para suportar essa nova versão de relacionamento, o virtual. Já era difícil encontrar pais e filhos que conversassem, o melhor amigo para ouvir, o gestor que desse e, principalmente, recebesse feedback. O fator humano está sendo integrado à tecnologia e tratado da mesma forma. Essa falta de equilíbrio entre o que é máquina e quem é o ser humano, que é dotado de emoção e coração, está desencadeando crises emocionais, ansiedade e depressão.

Segundo a BBC Brasil, em estudo publicado na revista científica PLOS Medicine, aponta a depressão como a segunda maior causa global de invalidez e de acordo com um estudo realizado em 2011, pela OMS (Organização Mundial da Saúde) o Brasil é campeão mundial em depressão entre 18 países pesquisados.

As redes sociais e seus relacionamentos virtuais têm contribuído para gerar um aumento nesses casos, uma vez que alimenta na maioria de seus usuários a necessidade de ser aceito pelo maior número de “amigos”. Já ouvi casos de pessoas que fazem comparações de popularidade em redes sociais ou que tiram satisfações quando alguém não o aceita como amigo.

Pensando nessa realidade, a superficialidade no conhecimento, apesar de maior oferta de informações, a urgência em responder sem analisar as consequências, uma vida mais virtual do que real, podemos compreender o que estamos vivendo nas relações profissionais. A falta de vinculo, frustação com expectativas não atendidas em curto prazo e, assim como na educação, será necessária uma adequação dos gestores a essa realidade em que estão inseridos, não apenas como lideres, mas também como indivíduos.

Como reflexão, será possível estabelecer a ordem das coisas? Possuímos condições de produzir e inserir a tecnologia até nos relacionamentos? Em alguns aspectos podemos diminuir distâncias, mas também nos permitir ter tempo para respirar, para refletir. e principalmente para a vida real que pode ser fonte de criatividade resgatando a nossa forma de se relacionar, ouvindo, olhando nos olhos e preservando nossa essência humana.



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