Mercado Secundário de Crédito

Risco & Recompensa, 08/08/2014

Por conta da situação de quase insolvência vivida pela Argentina, temos lido a respeito dos chamados ´Fundos Abutre´, que compram a dívida de um terceiro por um valor e através de um processo de cobrança mais incisivo, buscam uma recuperação que remunere adequadamente o capital investido. Apesar do nome não muito simpático, essa indústria existe há bastante tempo e seus protagonistas estão espalhados mundo afora.

No Brasil, trata-se de um segmento ainda em sua infância. A venda dos chamados créditos podres é comum em instituições estrangeiras, acostumadas a essas práticas em suas subsidiárias e matrizes no exterior, e entre alguns bancos de porte médio. Fora do mercado financeiro, instituições de ensino e varejistas as observam com curiosidade, mas ainda não as assimilaram plenamente em seu dia a dia. A princípio, toda empresa que tem créditos ou contas a receber poderia experimentá-las. Mas existem ainda algumas barreiras, a maioria delas culturais, que impedem a sua disseminação.

Do ponto de vista do vendedor, vender uma carteira com créditos atrasados proporciona uma antecipação de receita. Via de regra, o processo de cobrança teoricamente não cessa e os cedentes de crédito atuam em todas as faixas de atraso, com índices de recuperação que obviamente caem ao longo do tempo. Se esse fluxo de recebimento persiste, por que então optar pela venda? Além de receber a receita desses créditos ´na cabeça´, a instituição livra-se do trabalho de controlar e gerir inúmeros prestadores de serviço que atuam nos crédito de atraso longo. Isso deixa de ser uma preocupação e um custo. Também se minimiza a imprevisibilidade, ou o risco da incerteza do recebimento, que é transferido ao comprador. Ou seja, ao esvaziar um ´lago´ de recebíveis com atraso maior que ´x´ dias, o vendedor automaticamente não terá mais que se preocupar com as condições macroeconômicas futuras que interferem no recebimento desses ativos. Caso a instituição tenha mais de um contrato com o cliente, ao vender um ativo já categorizado como ´H´ na segmentação do Banco Central, ela deixa de fazer o ´arrasto´ e provisionar pelo pior indicador outros contratos que esse cliente venha a ter e que estejam em melhor situação de inadimplência. Resumidamente, essa prática proporciona ao vendedor um processo de gestão mais simplificado e barato, antecipação de receitas, redução da incerteza e eventualmente alívio na provisão para devedores duvidosos.

Do ponto de vista do comprador, vale a premissa de que um especialista exercerá a atividade melhor que o generalista. Pois se o investidor paga ´x´ pelos ativos, pretende receber uma remuneração maior que aquela obtida sem grandes riscos em outras aplicações. Se o vendedor transfere a incerteza para o comprador, conviver com ela implica em obter um retorno sobre o investimento superior ao tradicional. Os protagonistas da transação não tem como controlar fatores externos que impactam a qualidade dos ativos. Uma economia pujante, com incremento de renda e pleno emprego certamente é mais promissora, mas esses são elementos incontroláveis e podem variar bastante ao longo do ciclo completo de cobrança dos ativos, que normalmente ultrapassa três anos. Por conta desse risco, existe o deságio na precificação de uma carteira.

Eis o principal motivo de desalinhamento entre vendedores e compradores nesse mercado. Muitas vezes, o vendedor acha que o valor oferecido é baixo e o comprador considera que o preço exigido pelo vendedor é insuficiente para trazer o retorno desejado à transação. Um dos maiores entraves à convergência de expectativas é a assimetria de informação. O vendedor tem informações detalhadas a respeito da performance da carteira sob análise. Ele sabe quanto receberá de cada ´safra´ ao longo do próximos anos. Porém, normalmente ele não compartilha essa informação e espera que o comprador faça as devidas inferências. Esse por sua vez, vira-se como pode para encontrar curvas que se assemelhem às dos produtos sendo avaliados. Ocorre, porém, que a ausência de informação precisa faz com que seu detentor torne-se mais conservador. Desse modo, ao não compartilhar todas as informações disponíveis, o vendedor contribui para a depreciação do seu ativo. Ele espera compensar essa vulnerabilidade através de um processo competitivo, onde o papel é oferecido a vários interessados. Quem sabe assim, alguém não é capaz de cometer uma loucura e oferecer um preço mais alto que o esperado?

Muitas vezes isso acontece, mas no longo prazo essa situação prejudica o desenvolvimento da indústria, pois se o investidor paga caro demais por um ativo, terá uma remuneração baixa e não voltará tão cedo a se aventurar nesse tipo de transação. Da mesma maneira, um valor oferecido muito aquém do esperado pelo vendedor impede que a mesma ocorra. Assim, para esse mercado progredir, não é bom nem que o preço final de um ativo seja sobrevalorizado, tampouco que seja subvalorizado, pois se uma das partes se sentir prejudicada, dificilmente terá apetite para atuar novamente no segmento.

Pelo que foi brevemente descrito, fica claro também que para o comprador, a correta precificação dos ativos é absolutamente essencial. De nada adianta ter uma gestão excepcional sobre os mesmos, se o valor de aquisição estiver errado, muito acima do que o ativo pode render para trazer os retornos desejados. Aqui vale o ditado ´antes só, do que mal acompanhado´. Um ativo mal precificado é encrenca.

No caso brasileiro, existe ainda um apego cultural à carteira. Muitas instituições tem receio de que os compradores ajam com força desproporcional no processo de cobrança, causando danos à sua imagem. É uma preocupação justa, mas pode ser facilmente resolvida em um mercado já bastante profissionalizado. Seus atores são conhecidos, bem como as empresas prestadoras de serviço de cobrança. O código do consumidor protege os clientes de maneira clara, qualquer que seja o cedente da dívida. Mas também não deixa de ser exagerada. Não podemos nos esquecer de que na maioria absoluta das situações, o relacionamento desse cliente com a instituição cedente já foi cancelado, pelo fato do primeiro ter atingido no mínimo um ano de inadimplência. Tampouco esse ex-cliente seria elegível à nova concessão de crédito, por conta do próprio comportamento inadequado de pagamento. Assim, parece desproporcional o apego que alguns potenciais vendedores tem em relação a uma carteira de ex-clientes que lhes deram calote. Se essa barreira já foi superada em outros mercados, aqui ela ainda é uma realidade, que somente será suplantada com a experiência. À medida que os potenciais vendedores experimentarem essa prática sem maiores sobressaltos, é lógico esperar que o mercado secundário de crédito cresça e que os chamados abutres tenham mais carne à disposição.

De maneira geral, o benefício que esse mercado secundário traz para a indústria de crédito e cobrança é o aumento da eficiência. Mais simpático do que a analogia dos abutres é pensar nesse segmento como uma indústria de reciclagem, que aproveita o que aparentemente é desperdiçado ou jogado fora por terceiros e desse trabalho gera energia e matéria prima para outras indústrias. Ao adquirir carteiras de créditos podres, os compradores ajudam a sanear o balanço dos vendedores e ao tornar o processo de gestão desses ativos mais efetivo, melhoram a sua recuperação e diminuem o nível de inadimplência da indústria, além de reabilitarem mais clientes, que ao regularizar suas dívidas, podem voltar a ter pretensões de acesso a crédito no futuro.

Ano passado estima-se que esse mercado movimentou R$ 15 bilhões por aqui. Ainda pouco, se comparado ao universo de créditos podres disponível no mercado. Essa indústria deve crescer a passos mais largos que a de crédito e a de cobrança nos próximos anos e sua aceleração dependerá muito da adoção dessa prática (venda de carteira) pelas maiores instituições e pelo êxito dos projetos pilotos que as mesmas executarem.



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