Você é a favor do casamento entre pessoas jurídicas no varejo financeiro?

Risco & Recompensa, 07/05/2014

O debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo costuma ser acalorado em qualquer parte do mundo. No Brasil, o instante da aparição do tema também costuma ser o anúncio do início de um verdadeiro Fla X Flu entre liberais e evangélicos, por exemplo. Na França, mesmo com o legislativo já tendo aprovado leis a favor deste tipo de união, o clima de Corinthians X Palmeiras não é menor. Toda vez que se faz algum movimento de um lado, milhares e milhares de pessoas saem às ruas para protestar a certeza de que o certo é o outro.

Talvez esta divisão nunca termine e o mundo terá que aprender a conviver para sempre com ela, mas no mundo dos negócios geralmente não é assim. As empresas podem até ter formas diferentes de trabalhar, mas o objetivo comum, que é o lucro, faz com que elas busquem - e geralmente encontrem - alternativas de conciliar suas diferenças.

O segmento de varejo financeiro vive exatamente este momento no Brasil. Após experimentar um forte período de uniões entre varejistas e instituições financeiras com “juras de amor eterno” em meados da década de 2000, nos últimos três anos chegou-se à época de discutir a relação (DR).

Reclamações de insatisfações mútuas levaram ao rompimento de muitas parcerias, geralmente com a iniciativa de quebra de relacionamento sendo tomada pelos bancos. Algumas foram mais ruidosas, feitas em meio a conflitos e até disputas legais, mas a maioria das separações acabou acontecendo de forma pacífica.

A razão dos conflitos entre prós e contras ao chamado casamento igualitário no mundo das pessoas físicas se encontra no campo das concepções religiosas, comportamentais etc. Já no campo das pessoas jurídicas este tipo de questão não tem muita relevância desde que o resultado final das ações seja positivo.

O critério para se determinar a continuidade ou não de um casamento é o que se perde e o que se ganha com a associação. No caso dos varejistas, por exemplo, os serviços financeiros prestados para o consumidor final por meio de cartões, crédito, seguros, fidelização, etc tiveram uma participação muito significativa no resultado geral das empresas em 2013. E este é o fator determinante para se querer evitar qualquer possibilidade de risco, seja qual for o tipo de casamento que se ofereça.

Algumas marcas de referência do setor comprovam esta importância. A Renner, por exemplo, teve 20,8% de seus lucros originados no varejo financeiro em 2013. Riachuelo, teve 21,7%, Marisa, 56,8%, Pernambucanas, 130,3%, Magazine Luiza, 47,9% e Pão de Açúcar, 13,4%.

Na vida conjugal das pessoas físicas, seja qual for o tipo de união que elas estejam dispostas a fazer, a sobrevivência do relacionamento depende essencialmente de uma relação de poder na qual as duas partes se sintam confortáveis.

No caso das pessoas jurídicas, este fator também é fundamental. Os varejistas maiores, como os acima mencionados, têm em geral negócios de varejo financeiro em um modelo de controle total ou em sociedade com os bancos. Já os varejistas médios e pequenos costumavam ter parcerias de comissionamento por vendas ou profit sharing com os bancos.

A relação de poder permaneceu do agrado da maior parte das grandes marcas e seus parceiros, já para as companhias consideradas pequenas e médias, o arranjo de poder arranhou os sentimentos maiores pela lucratividade e por causa disso, esses estabelecimentos foram os mais afetados pelo fim recente de centenas de casamentos.

Olhando para estes resultados e na busca pela maior lucratividade e pela reconquista do relacionamento com o cliente, os varejistas buscam alternativas para reassumir os negócios sozinhos. Aí eles esbarram no desafio que é a necessidade de um grande funding. Para romper esta barreira eles começam a encontrar soluções se aliando a empresas regionais ou bancos menores, por exemplo.

Os bancos continuam de olho neste filão e, embora a maior parte deles tenha a princípio se decepcionado com o formato de casamento tradicional adotado, talvez se inspirem nos novos formatos de famílias modernas que surgem no mundo das pessoas físicas para descobrir uma forma de continuar se relacionando com os varejistas. Ainda não é possível saber como isto acontecerá. Mas o fato é que, se for lucrativo para ambas as partes, eles viverão felizes para sempre.



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